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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

VOCÊ ESTÁ DEMITIDO



Cada vez mais vemos matérias sobre grandes empreendedores brasileiros, que fazem enorme sucesso com suas audaciosas investidas empresariais. Compram empresas, reduzem custos, “contratam os melhores”, aplicam a teoria da “meritocracia” e juram que ninguém puxa o tapete de ninguém em suas empresas. Se vangloriam de serem experts em reduzir custos e muitas vezes o fazem de maneira absurda (uma delas, por exemplo, diz que o segredo está em “cortar até o cafezinho das reuniões).

Muitas vezes, essas empresas, aplicam essas fórmulas de redução drástica de custos, começando pela folha de pagamento; em outras palavras: cortam gente.

Como o assunto está em moda nessas duas últimas semanas, decidi postar um texto que já conhecia há algum tempo, escrito por Stephen Kanitz. Aproveitem e reflitam. Abs.....


Você Está Demitido
 (Texto de Stephen Kanitz)

Você é diretor de uma indústria de geladeiras. O mercado vai de vento em popa e a diretoria decidiu duplicar o tamanho da fábrica. No meio da construção, os economistas americanos prevêem uma recessão, com grande alarde na imprensa.

A diretoria da empresa, já com um fluxo de caixa apertado, decide, pelo sim, pelo não, economizar 20 milhões de dólares. Sua missão é determinar onde e como realizar esse corte nas despesas.

Esse é o resumo de um dos muitos estudos de caso que tive para resolver no mestrado de administração, que me marcou e merece ser relatado. O professor chamou um colega ao lado para começar a discussão. O primeiro tem sempre a obrigação de trazer à tona as questões mais relevantes, apontar as variáveis críticas, separar o joio do trigo e apresentar um início de solução.

"Antes de mais nada, mandaria embora 620 funcionários não essenciais, economizando 12 200 000 dólares. Postergaria, por seis meses os gastos com propaganda, porque nossa marca é muito forte. Cancelaria nossos programas de treinamento por um ano, já que estaremos em compasso de espera. Finalmente, cortaria 95% de nossos projetos sociais, afinal nossa sobrevivência vem em primeiro lugar".

É exatamente isso que as empresas brasileiras estão fazendo neste momento, muitas até premiadas por sua "responsabilidade social".

Terminada a exposição, o professor se dirigiu ao meu colega e disse:

-Levante-se e saia da sala.

-Desculpe, professor, eu não entendi - disse John, meio aflito.

-Eu disse para sair desta sala e nunca mais voltar. Eu disse: PARA FORA! Nunca mais ponha os pés aqui em Harvard.

Ficamos todos boquiabertos e com os cabelos em pé. Nem um suspiro. Meu colega começou a soluçar e, cabisbaixo, se preparou para deixar a sala. O silêncio era sepulcral. Quando estava prestes a sair, o professor fez seu último comentário:

-Agora vocês sabem o que é ser despedido. Ser despedido sem mostrar nenhuma deficiência ou incompetência, mas simplesmente porque um bando de prima-donas em Washington meteu medo em todo mundo.

Nunca mais na vida despeçam funcionários como primeira opção. Despedir gente é sempre a última alternativa.

Aquela aula foi uma lição e tanto.

É fácil despedir 620 funcionários como se fossem simples linhas de uma planilha eletrônica, sem ter de olhar cara a cara para as pessoas demitidas.

É fácil sair nos jornais prevendo o fim da economia ou aumentar as taxas de juros para 25% quando não é você quem tem de despedir milhares de funcionários nem pagar pelas conseqüências.

Economistas, pelo jeito, nunca chegam a estudar casos como esse nos cursos de política monetária.

Se você decidiu reduzir seus gastos familiares "só para se garantir", também estará despedindo pessoas e gerando uma recessão.

Se todas as empresas e famílias cortarem seus gastos a cada previsão de crise, criaremos crises de fato, com mais desemprego e mais recessão.

A solução para crises é reservas e poupança, poupança previamente acumulada. O correto é poupar e fazer reservas públicas e privadas, nos anos de vacas gordas para não ter de despedir pessoas nem reduzir gastos nos anos de vacas magras, conselho milenar. Poupar e fazer caixa no meio da crise é dar um tiro no pé.

Demitir funcionários contratados a dedo, talentos do presente e do futuro, é suicídio.

Se todos constituíssem reservas, inclusive o governo, ninguém precisaria ficar apavorado, e manteríamos o padrão de vida, sem cortar despesas.

Se a crise for maior que as reservas, aí não terá jeito, a não ser apertar o cinto, sem esquecer aquela memorável lição: na hora de reduzir custos, os seres humanos vêm em último lugar.


Fonte da foto: http://esporteonline.com/blogdonake/wp-content/uploads/2009/04/demitido.jpg


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

PROCURAR TRABALHO É UM TRABALHO E DÁ TRABALHO






Se você nunca foi demitido, fique alerta: a experiência de ser desligado de uma empresa está longe de constituir uma exceção, como acontecia em um passado não tão distante. Ainda que continue gerando desconforto, receio, insegurança e aquela desagradável sensação de soco no estômago, a demissão é uma realidade cada vez mais presente na vida dos profissionais, independentemente de quão capacitados eles sejam. O cenário muda, os projetos se transformam e, de repente, aqueles que se encaixavam em uma determinada conjuntura deixam de ser o perfil mais indicado. Claro, problemas de desempenho também ocorrem. A diferença é que, hoje, uma boa performance já não é condição suficiente para assegurar o emprego.

A crise que aí está exemplifica bem a situação. Empresas de diferentes setores substituíram o foco expansionista pela ênfase a controles, eficácia operacional e redução de custos. A mudança de ótica causou impacto nas competências requeridas pelo negócio, fato que vem provocando um intenso movimento de troca de profissionais nas esferas mais altas da estrutura organizacional. Some-se a isso a suspensão e o adiamento de projetos, motivo de outras tantas baixas, e obtém-se um mercado de trabalho repleto de bons profissionais, o que acirra a disputa pelas escassas oportunidades que surgem.

A lei da oferta e da procura é implacável, reafirmando a importância de buscar formas de se diferenciar da multidão. Como sempre, a postura diante dos desafios da vida faz a diferença. Quem vivencia um período de transição de carreira sabe bem a dificuldade que é encontrar ou procurar pessoas e ter de enfrentar uma simples pergunta: “o que você anda fazendo?” Em geral, a resposta vem recheada de justificativas, queixumes ou, ao contrário, de um discurso ensaiado e formal, que peca no quesito credibilidade. Poucos são os que dizem “estou trabalhando em um projeto especial”, respaldados por um consistente projeto pessoal de busca de novas oportunidades de reinserção no mercado.

Costumo dizer que procurar trabalho dá trabalho e exige dedicação em tempo integral, além de muitas horas extras. Até para obter uma ajuda efetiva do nosso networking, temos de fazer corretamente a lição de casa, definindo com clareza nossas metas e objetivos. Qual o cargo ou a atividade que desejamos exercer? Em que ramos de atividades podemos ou queremos atuar? Quais nossas preferências no tocante a porte da organização, origem do capital, localização? Quando temos em mente esses aspectos nos habilitamos a fazer uma lista de empresas-alvo e, conseqüentemente, de pessoas-chave para realizar nossos intentos.

Ajudar nossos contatos a nos ajudar é um dos desafios a ser considerado. Parece incrível, mas quando alguém perde o emprego acaba pressionado socialmente pelos pedidos de currículos por parte de familiares, parentes, amigos e conhecidos. A intenção é boa, ainda que inócua na maioria das vezes. Sem maiores detalhes sobre o projeto de reinserção, os elos do networking têm pouco a fazer. Com certeza, você mesmo já esteve na posição de querer colaborar para a recolocação de alguém. O que fez com o currículo dessa pessoa? Se a correria do cotidiano não o sufocou, você pode até ter passado a informação adiante, quem sabe com uma recomendação pessoal. O documento, no entanto, possivelmente caiu na vala comum, juntando-se a outros tantos que circulam nesses tempos de escassez de ofertas.

Assertividade e atitude proativa são fundamentais para ampliar suas possibilidades. Trabalhe seu projeto, especificando os objetivos com a máxima clareza. Ao fazer networking, mostre sua lista de empresas e pessoas-alvo, realizando assim uma espécie de pesquisa estimulada. Seu interlocutor poderá, na hora, identificar acessos possíveis e lhe fornecer o caminho das pedras. Terá chances até de fazer conexões que você desconhece, ampliando o leque de alternativas.

Lembre-se: a vida é dinâmica e nem sempre nos lembramos de atualizar as pessoas quanto aos nossos progressos, às mudanças de perfil, às novas competências e habilidades adquiridas. Tudo isso tem de fazer parte do plano de marketing do seu passe-livre – sem dúvida, seu principal e mais urgente projeto de trabalho no momento atual.





Texto de José Augusto Minarelli-Presidente da Lens & Minarelli Associados